sábado, agosto 28

BRASAS NA CABEÇA CERTA!

Átila da Silva para o CONTRA MÃOS

A edição nº 2175 de 28 de julho de 2010 da revista Veja, estampou o "poder do perdão" como assunto de capa. Mas chama a atenção, dentre outras, a frase do poeta e escritor argentino, já falecido, Jorge Luis Borges:

"Para as ofensas, a maior arma é o esquecimento.
É no esquecimento que se igualam vingança e perdão".   
 Escrevendo sobre o personagem bíblico Jó

Mas u'a máxima relacional que compõe o esboço das certezas na mente dos que sofreram vai de encontro à palavra de Borges: "Quem bate esquece, mas quem apanha não!".
Realmente, existem níveis de ofensa que operam efeitos em nossa mente e emoções. Desde:
*uma simples 'falta de educação' (Não ser cumprimentado, ter seu assento no cinema usurpado, etc.),
*um olhar crítico sem fundamento,
*um comentário de 'segunda mão' que alguém faça sobre sua vida (A pessoa consegue emitir opiniões sobre algo relacionado a você, mas não consegue fazê-lo pessoaalmente),
*até a injustiça sofrida, o ataque gratuito, as intenções de ofensa, ultraje, afronta, dano e lesão (Material, emocional ou espiritual).

Esses diferentes níveis nos ferem e mexem com nossa capacidade de autopreservação, amor próprio e noção da realidade ("Será que isso está acontecendo mesmo comigo?").
Dependendo da região atingida pela 'flecha da ofensa', conseguimos assimilar o golpe e transformá-lo em suprimento de maturidade disponível para experiência futuras.
Mas quando atinge o "olho de boi", a 'mosca', o centro mais querido e protegido, desencadeia em nós o processo de resposta via vingança ou amargura, ambas como aquele sentimento arraigado de dor e ressentimento.
(Veja a foto abaixo)
O peregrino não tenta negar esses sentimentos, pois estaria arriscando-se a acobertar um elefante raivoso numa loja de cristais, ou seja, dentro de si mesmo. Também não busca apenas atenuar a ferida aberta com uma repetição mântrico-religiosa, ou chocolate ou bebida forte. Então, como proceder?

O trecho bíblico de Romanos capítulo 12 e versos de 19 e 20 pode ajudar:
video


Note que o texto indica duas ações reparadoras:
1ª. Subjugue a influência da vingança.
2ª. Subjugue a influência da passividade.

*Colocar sob o jugo certo o sentimento de vingança e ira. ("Senhor, que ele/ela sofra o mesmo inferno que estou vivendo, multiplicado por 70 vezes 7!"; "Senhor, não quero vingança, somente que ele/ela quebre, apenas, algumas costelas!")
Qual é o jugo certo? A VONTADE DE DEUS.
Fazer isso é administrar a si mesmo um poderoso remédio.
A naturalidade é deixar-se influir e agir de acordo com o clamor interior, conforme a sua vontade. Mas ao subjugar a vingança e a ira, você realinha sua visão à de Deus e percebe que sua vida não se resume à violência sofrida, mesmo que esteja doendo muito, e que você tem à sua disposição uma ação libertadora que repara a alma. O texto ainda diz que você deve dar lugar à ira de Deus. Sim, entregar nas mãos certas, ao Senhor que conhece todos os detalhes sobre tudo o que aconteceu, e descansar nEle, em Sua retribuição ao ofensor conforme a Sua sabedoria e perfeita vontade.
Essa fase de entrega é regada a lágrimas e inconformismo. Mas fique firme, continue submetendo a todo momento sua sede de vingança a Deus, com perseverança. Confie nEle e conseguirá vencer (verso 19).

A segunda ação reparadora é:
*Colocar sob o jugo certo o sentimento de passividade ("Senhor, para mim essa pessoa morreu!").
Qual é o jugo certo? A VONTADE DE DEUS.
Se antes eu entrego o caso a Deus, agora eu tomo a decisão de fazer a Sua vontade. O verso 20 mostra que quando você abre mão da passividade nega ao ofensor o acesso ao seu coração. Ou seja, decidindo agir conforme a vontade de Deus, você deposita sobre a cabeça certa as brasas do ônus da ofensa. Não estará mais à mercê de pensamentos que adoecem, que remoem a alma. Oferecer o amor prático de Cristo a alguém que nos ofendeu, machucou, é deixar de carregar um peso do passado e liberar o coração para ser curado. A força desse amor é o anticorpo espiritual natural para situações de ofensa.
"Não posso deixar que o outro diga como procederei. Eu é que irei fazê-lo!"

Já vivi essa experiência muitas vezes e posso afirmar que cicatrizes podem ficar, mas não atrapalham o desenvolvimento de um coração livre e maduro.

FONTES:
1. Revista Veja - edição nº 2175 de 28 de julho de 2010, p.128, in Acervo Digital http://www.veja.com.br/acervodigital/
2. Foto de Jorge Luis: www.mozaik.com.br
3. Alvo: http://www.dreamstime.com/
4. Foto: Revista Veja - edição nº 2175 de 28 de julho de 2010, pp.128, 129.
5. Foto coração: commons.wikimedia.org
6. Foto brasas: parrillasaojose.com.br